Nota

Você,Sussurra teus devaneios,Com reticências de desespero..Eu os recolho…

Você,
Sussurra teus devaneios,
Com reticências de desespero..
Eu os recolho… Recuo teus dilúvios…
Esmigalhados, em sangue,  jogo à brasa seu padecer
E te entrego
O que restou é findo,
Matéria-prima para versos,
Dessa dor, …
Que só suporto dentro do teus olhos,
Transformada em esquecimento,
Pelo carinho,
Da minha matéria amante.
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Hoje teci sua ausência com fios de ouro
Rodopiei até encontrar a luz que incendeia teus rastros
Li os poemas que dedicaste ao meu ego, reli o teu desejo, o intervalo desesperado da procura
em nossas mãos,
perdidas em nós.
De qual fúria instaura tua ambivalência?
Se não sou eu, que desce e ilumina tuas coisas tenras,
Se não sou eu, que das cores em sangue, percorro sob teus pés o impulso que ocasiona a liberdade e as breves delícias da vida
Eis a poesia
Eu acho que perdeste em mim
A tua ânsia de propagação
V

Às 6 horas da manhã

Faltam cinco minutos para as 6h.
Meu coração intacto, ressoa urgências
em um mar de aforismos e regras.
Em intensidade de orgasmos líquidos, concretos
e furtivos
lutamos contra as
horas que insistem em nos tomar.

Incendeio, mergulho… Meu sonho é maior que a vida.
Erguemos contra a vontade
para cobrir nosso escândalo com tecidos macios e confortáveis..
para cobrir nossos gestos, nossa consistência perene de sermos humanos.
Para aplacar o grito.
Sorrir o espanto.
Um café, um cigarro
Um milhão de desilusões amanhecem junto com os homens
Às 6 horas da manhã.

Nota

Telefone
E este espaço infindo que habitaste em nós
Desligamo-nos em aparelhos
E o silêncio que inaugura, o silêncio se desfaz da amargura de não se suportar silêncio
É menor, ainda,
Que o silêncio em comunhão
Que propusemo-nos em silêncio, essa linguagem descabida, essa linguagem ausência De verbo, sentido e coesão
Me incendeia surdamente ao avesso, sentido de gestos, … Atmosferas paralisadas dentro da beleza que se liquefaz  incessantemente…
Des(encontros)
Ao acaso
O amor se duvida, a feiura da morte não, a beleza da morte fugidia  
A Dúvida, verdade-mentira
amanhece
e
escurece
eternamente em nós

Micro-organismo

Um copo com água sob meus pés cansados

Erick Satie dançando sobre os ouvidos, grita.

Toda poesia que comove, toda poesia que me resta;

e este copo d’água, em uma parte, virará (p)arte

Deste meu organismo incrédulo, deste organismo intenso, ensanguentado por poções meridianas de exatidão e essência, por entre os órgãos e nações que habitam o avesso deste corpo nu.

Desembocará em água, torrente e  sem pedir licença, se misturará para sempre neste templo, corpo

 micro-organismo de versos

 

Apelo ao pecado banal

Nua e avessa dispo-te com a delicadeza de uma puta. Impiedosa, reflito teu holocausto, teu pavor e a tua vergonha. Jorrada dentro das tuas experiências, ao aroma do belo transponho-me. Sou estruturalmente esmigalhada nas cinzas do teu cigarro ruim.
Dentro da noite, rasgo tuas repulsas,sugiro a tua cura indevassável, retiro do ar, ligeiramente embriagado, a tua bendita essência, teu apelo ao pecado banal.

És de carne, és labareda, és forte e valente,
tens mãos e pés, pelos e contornos, oceano de texturas. Homem, bicho mortal como todos o são, e se metem no mundo, grandes farrapos vestidos em meio à multidão de coisas perecíveis e ternas. Souberas! Teu silêncio se desfaz, teu silêncio ressoa, grita: és tragicamente humano para suportar a nudez de uma mulher sem princípios.

Celebração

Rastros sob a delicadeza, caminhos de maçã em carne.
Noites suspensas sob os contornos noturnos de sua pele, calculada em chamas,
Extraida de um milhão de deuses e homens,
Adormecidos no tempo etéreo de nossa virgindade e prece.

És a falta que me comove e não encontro no poema.
Qual é o aroma que veste e desfolha o pálido caminho dos teus pés errantes?
Foi brasa, delícia, o beijo, Klimt.
Um instante e a sua voz inaugura tudo o que em mim é sagrado.

Os sinos daquela antiga igreja, carregada de memórias, não hesitam em tilintar seus gestos convalescentes aos que ainda crêem.
Tim- Tom- Tim- Tom.
Ouço murmúrios de um velho senhor rabugento: alto e encapotado (esperando a chuva que ele talvez tenha suposto, desde o início da manhã)
Uma velha me acena ao longe, mas, eu, com toda a minha perturbação, não sou capaz de atender seu pedido. Gostaria de beijar seus pés, minha senhora, e lhe pedir perdão, mas suas crenças se diferem das minhas! Ah, são tão embriagadas sobre coisas etéreas e mornas. Mundanas demais para o seu deus. (reflito pausadamente e recolho minhas palavras)

Volto cabisbaixa, leve, observando as sarjetas – há algo de absurdo em transeuntes que observam sarjetas ao invés de observarem olhares apáticos, perdidos em meio ao caos do trânsito que circundam e serpenteiam caminhos, ou até, quem sabe, observar uma gota de felicidade dentro dos olhos daquele menino esguio, implorando fome.
Ah, meus senhores! E serão os homens do certo e do direito? Financeiros ou promíscuos, em busca de um mísero orgasmo de vida para suportar a dor da existência medíocre em que vivem.
Onde estás poesia? Neste dia eu a encontrei, voltando para casa, no meio do caminho, ela pairava ali, no reflexo dos meus olhos, devorando Narciso de Caravaggio, dentro daquelas imundas sarjetas.

AMOR(to)

Amor, verás que o Amor morará debaixo de tuas saias quando de tua febril entranha palpitar teus pêlos banhados a línguas desconhecidas; verás o sabor do teu sexo chorar o líquido do fim após todos os sangues derramados. Saberás então que o Amor fere como o inferno e cava paraísos com o toque…
Ah! O Amor nasce nos momentos desconhecidos pelo pudor, fecunda no suor das mãos gotejantes, geme na escuridão. Teu Amor chegará por dentro, rasgando teus caminhos nunca atravessados, mascará tua meia-noite, devorará a carne que protege a tua alma.
O Amor lhe apresentará a solidão, os lençóis e a louça do jantar; o Amor cobrará o aluguel, a comida e a disciplina; ligará o controle, queimará no tédio, roerá as unhas. O Amor casará com a rotina, com os outros Amores e com a bebida.
O Amor, o ARmorto, o Amor, o AMORto, o Amor, o ARmorto, o Amor, o AMOR(to)!
O “Amor” finda na face todo ódio escondido pela monotonia de amar sem poesia.