Os sinos daquela antiga igreja, carregada de memórias, não hesitam em tilintar seus gestos convalescentes aos que ainda crêem.
Tim- Tom- Tim- Tom.
Ouço murmúrios de um velho senhor rabugento: alto e encapotado (esperando a chuva que ele talvez tenha suposto, desde o início da manhã)
Uma velha me acena ao longe, mas, eu, com toda a minha perturbação, não sou capaz de atender seu pedido. Gostaria de beijar seus pés, minha senhora, e lhe pedir perdão, mas suas crenças se diferem das minhas! Ah, são tão embriagadas sobre coisas etéreas e mornas. Mundanas demais para o seu deus. (reflito pausadamente e recolho minhas palavras)

Volto cabisbaixa, leve, observando as sarjetas – há algo de absurdo em transeuntes que observam sarjetas ao invés de observarem olhares apáticos, perdidos em meio ao caos do trânsito que circundam e serpenteiam caminhos, ou até, quem sabe, observar uma gota de felicidade dentro dos olhos daquele menino esguio, implorando fome.
Ah, meus senhores! E serão os homens do certo e do direito? Financeiros ou promíscuos, em busca de um mísero orgasmo de vida para suportar a dor da existência medíocre em que vivem.
Onde estás poesia? Neste dia eu a encontrei, voltando para casa, no meio do caminho, ela pairava ali, no reflexo dos meus olhos, devorando Narciso de Caravaggio, dentro daquelas imundas sarjetas.

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