Tua

Fui. Tua, nua. Fui crua, carne, desprendida, avessa. Fui teu delírio, tua solidão, teu sexo. Fui sua obra-prima, seu renascimento, sua morte anunciada. Fui sua escrava, sua deusa, seu demônio. Suas noites de verão, seus lençóis, seu sêmen, seu suor, sua gota de bile, seu pranto e seu gemido. Terrivelmente sua, feito dois amantes, que desconhecem o fim, insuportavelmente fomos, somos, fui, foi, é, és; e sobre a terra que tece migalhas, sobre a terra que faz nascer, recolho teu silêncio, com as mãos gastas, e me meto no mundo escrava da tua ausência

Impressões

Sou tal como uma obra oriunda de Monet – distinta e análoga. Tenho a alma impressionista. Ver-me ia ao longe, em pequenas pinceladas. Meus vislumbres, minha conotação. Minha atmosfera pincelada: noturna, convexa. E assim, quando tocar em minha pele, minha alma estremeceria em delírio e transformaria para sempre num quadro inacabado; dedilhado sob a superfície do pincel, rodeando eternamente, meu corpo em chamas.Imagem

Nota

Detesto títulos.

Títulos sempre me desesperavam. E continuam. Títulos me limitam, me enforcam, me balançam em abismos de linguagens mornas, hão de pedir migalhas, restos de ideias à palavras já anunciadas.

Quero títulos escondidos, encontrar na pureza das coisas etéreas uma vírgula intitulada, esguia, tímida, pairando sob o texto, devorando em prosa a carne da linguagem estabelecida.

Tudo que intitula não cabe à prosa, nem ao verso, tampouco à poesia. O que intitula corrói, é presunção. Um texto sempre toma outros caminhos  quando se tem a alma suficientemente bela  para  exaurir os pontos finais.

Carlos Drummond de Andrade já dizia, em Consideração do Poema:

” Não rimarei a palavra sono

com a incorrespondente palavra outono.

Rimarei com a palavra carne

ou qualquer outra, que todas me convém.

As palavras não nascem amarradas,

elas saltam, se beijam, se dissolvem,

no céu livre por vezes um desenho,

são puras, largas, autênticas, indevassáveis”…